O retrato hollywoodiano das abelhas

  Todos os filmes, mesmo aqueles blockbusters produzidos visando exclusivamente o lucro nas bilheterias, acaba por trazer alguma informação, seja uma falsa informação como nos acontecimentos do filme O Dia Depois de Amanhãou informação verídica, como no caso dos documentários.

   A análise a seguir esclarecerá como uma animação e um drama podem se relacionar com um documentário, para explicar o vida das abelhas e as consequências de seu desaparecimento.

  Iniciaremos nossa análise com o filme Bee Movie – A História de uma Abelha.A premissa do longa é excelente; apresentar um conflito entre duas espécies – abelhas e ser humano – e resolver o mesmo quando impactos ambientais catastróficos resultam das ações das abelhas. 

   O filme consegue apresentar de maneira simbólica o funcionamento de uma colmeia. Digo simbólica, porque sabemos que não existem carros nem indústrias dentro de uma colmeia. Contudo, através destes simbolismos, crianças conseguem aprender o funcionamento básico desta sociedade.

   Logo no início do longa, uma das abelhas informa ao Barry – personagem principal – que o trabalho escolhido por ele será realizado ao longo de toda a sua vida. Tal informação é verdadeira, já que na hierarquia estabelecida dentro de uma colmeia, cada abelha é responsável por uma função, seja trabalho e defesa –  no caso das operárias – ou reprodução – no caso dos zangões e abelha rainha. 

   Na animação também é apresentado o momento da polinização, na qual a abelha que guia o Barry diz: 

   “É o poder do pólen. Mais pólen, mais flores, mais néctar, mais mel.”

  Ao falar tal frase, é passado ao espectador que o pólen tem o poder de aumentar a quantia de flores, logo aumentando a quantidade de mel. 

   Você pode ver tal cena no trecho do filme

Imagens do filme Bee Movie, no qual representam o momento da polinização.

   A mesma cena é possível perceber como as abelhas enxergam a coloração das flores. Na prática que realizaremos esta semana, demonstraremos como uma abelha enxerga as diferentes cores. 

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Imagens do filme Bee Movie, no qual é demonstrado como uma abelha enxerga a coloração das flores.

    Entretanto não é só de realidades que se faz uma animação. Provavelmente para criar empatia entre as crianças que assistem (público alvo), as abelhas são personificadas a ponto de perderem uma característica que as fazem ser classificadas como artrópodes. No filme, as abelhas possuem somente dois pares de patas, enquanto na realidade as mesmas possuem 3 pares. 

Representação de uma abelha, que na realidade possui 3 pares de patas. 

   Outro ponto de discordância entre o filme e a realidade é o fato do Barry e as outras personagens do filme possuírem diferentes mães. Enquanto na realidade em uma colmeia, formada por centenas de abelhas, elas possuem somente uma mãe, que é a abelha rainha, que tem a função exclusiva de gerar novos indivíduos.  

Imagem do filme Bee Movie, na qual os pais da personagem são apresentados.

  Outro filme que está vinculado com a temática abordada pelo blog esta semana é A Vida Secreta das AbelhasNo longa, ao fugir de casa, Lily, passa a morar com as irmãs Boatwright, que são donas de um apiário local. Na primeira cena em que o apiário é apresentado, a personagem de Queen Latifah, August, afirma para Lily que “nenhuma abelha que ame sua vida irá picá-la”. 

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Cena do filme “A Vida Secreta das Abelhas”

   Uma abelha morre após picar, porque o ferrão é um prolongamento do seu tórax, que ao se ligar vítima acaba se rompendo. (DESGUALDO, 2008).

   Escolhi este filme para servir como um contraponto, ainda que muito romantizado, ao que o filme Bee Movie apresenta sobre a relação de exploração dos Homens e das abelhas. Enquanto a animação coloca o ser humano como uma figura que usufrui do mel sem direito algum, o drama coloca as abelhas como uma grande representação da natureza, a qual devemos proteger. 

   Em ambos os filmes, são utilizadas as armas de fumaças para afugentar as abelhas. Esta “arma” tem a função de simular um incêndio para as abelhas, levando-as a guardar o mel na probóscide. Ao fazer essa atividade, as abelhas tendem a ficar mais calmas, o que permite o manuseio da colmeia e a retirada de mel dos favos. Além de que a fumaça causa uma dispersão nos aromas liberados pelas operárias, que indicam a presença de perigo.(RURALNEWS, 2014)

   Entretanto o foco desta análise é demonstrar como o desaparecimento das abelhas levará a grandes impactos na agricultura. 

   No final da animação, Barry percebe que ao parar de realizar a colheita do néctar, as abelhas acabam por não realizar a polinização das flores, levando a morte delas. O problema só é resolvido quando toda a colmeia realiza a polinização de um conjunto de flores a partir das últimas remanescentes.

   Contudo na realidade a solução para o problema não é tão simples, o documentário Vanishing of the Bees demonstra como o ser humano pode estar impactando as colmeias em escala global, causando a chamada Desordem do Colapso da Colmeia (DCC), processo no qual há o desaparecimento das abelhas de uma colmeia sem vestígios aparentes.

   O documentário aponta que a causa da DCC é o uso de pesticidas sistemáticos, que seriam aqueles utilizados diretamente nas sementes, que ao crescerem passam o pesticidas paras as folhas, flores e até para os grãos de pólen, sendo que este seria o causador do efeito sobre as abelhas.

   Tais informações passadas pelo longa parecem ser verdadeiras quando levantamos dados sobre tal. Segunda um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Maryland nos Estados Unidos, o uso de pesticidas acaba por tornar a abelha mais fraca, levando-a a adoecer por parasitas. (PETTIS et al, 2013). Contudo, pesquisas continuam sendo feitas ao redor do mundo para tentar compreender quais os pesticidas tem maior impacto nas colmeias e como agem no sistema imune da abelha.

   Um dado interessante é a invenção de um físico brasileiro que trabalhando em uma universidade da Tasmânia criou um sensor que é colocado no dorso das abelhas e passam a acompanhá-la, buscando entender assim, como se dá o sumiço delas. 

   Vale ressaltar que os estudos dos impactos dos pesticidas ou outros causadores da DCC são baseados nas abelhas Apis mellifera, uma espécie invasora que foi resultado do cruzamento de abelhas africanas com europeias em experimentos realizados na cidade de Rio Claro, SP. As abelhas africanas eram muito agressivas, enquanto as europeias não eram resistentes aos parasitas americanos, entretanto o cruzamento de ambas levou ao surgimento de uma abelha extremamente agressiva, porém muito produtiva. Esta abelha conseguiu escapar do apiário da cidade devido a um acidente. Hoje, as chamadas abelhas africanizadas são responsáveis pelo desenvolvimento agrícola do país. (EMBRAPA). Contudo, estas mesmas abelhas tornaram-se um perigo para as abelhas nativas graças a sua grande capacidade de reprodução, ocasionando um desiquilíbrio no ecossistema (SANTOS et al, 2012)

   Por João Pedro Broday

Fontes

SANTOS, C. E. C. BRASILEIRO CRIA MICROSSENSOR PARA ESTUDAR SUMIÇO DE ABELHAS NO MUNDO. Disponível em <http://www.joseferreira.com.br/blogs/educacao-infantil/curiosidades-sobre-o-mundo/brasileiro-cria-microssensor-para-estudar-sumico-de-abelhas-no-mundo/&gt; Acesso em 23 maio 2016.

DESGULADO, P. POR QUE AS ABELHAS MORREM QUANDO PICAM? Disponível em < http://super.abril.com.br/ciencia/por-que-as-abelhas-morrem-quando-picam > Acesso em 26 maio 2016.

REDAÇÃO RURALNEWS. A IMPORTÂNCIA DA FUMIGAÇÃO NO MANEJO DAS COLMEIAS. Disponível em < http://www.ruralnews.com.br/visualiza.php?id=948  > Acesso em 26 maio 2016.

PEREIRA, F. M. DESORDEM DO COLAPSO DAS COLÔNIAS (DCC). Disponível em < http://www.cpamn.embrapa.br/apicultura/desordemColapso.php > Acesso em 26 maio 2016.

PETTIS, J. S; LICHTENBERG, E. M; ANDREE, M. STITZINGER, J; ROSE, R; VANELGELSDORP, D. CROP POLLINATION EXPOSES HONEY BEES TO PESTICIDES WHICH ALTERS THEIR SUSCEPTIBILITY TO THE GUT PATHOGEN Nosema ceranae. Publicado em 24 jul 2013.

EMBRAPA.INTRODUÇÃO DA Apis mellifera NO BRASIL. Disponível em < https://sistemasdeproducao.cnptia.embrapa.br/FontesHTML/Mel/SPMel/historico2.htm > Acesso em 26 maio 2016.

SANTOS, G. M. M; AGUIAR, C. M. L; GENINI, J; MARTINS, C. F; ZANELLA, F. C. V; MELLO, M. A. R. INVASIVE AFRICANIZED HONEYBEES CHANGE THE STRUCTURE OF NATIVE POLLINATION NETWORKS IN BRAZIL. Received: 7 February 2011 / Accepted: 27 April 2012
Springer Science+Business Media B.V. 2012

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